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Wolf: Escolhas feitas em 2009 moldarão o destino do planeta

Posted in Crise by Blog Juízo Final on 13/01/2009
Financial Times
wolfMartin Wolf
Colunista do Financial Times

Bem-vindo a 2009. Este é um ano em que será determinado o destino da economia mundial, talvez por gerações. Alguns nutrem a esperança de que poderemos restaurar o crescimento econômico mundial desequilibrado de meados desta década. Eles estão errados. Nossa opção é apenas sobre o que o substituirá. É entre uma economia mundial mais equilibrada e a desintegração. Esta escolha não pode ser adiada. Ele terá que ser feita neste ano.

Nós estamos no meio da crise financeira mundial mais significativa das últimas sete décadas. Como resultado, o mundo ficou sem tomadores privados de empréstimos de grande escala, dignos de crédito. A alternativa de depender de vastos déficits fiscais americanos e da expansão do crédito do banco central é um expediente temporário -apesar de necessário. Mas não promoverá um retorno durável ao crescimento. Mudanças fundamentais são necessárias.

Já deve estar claro mesmo para o mais obtuso e complacente que esta crise se equipara às mais sérias que já atingiram os países avançados na era do pós-guerra. Em uma recente atualização de um trabalho seminal, apresentado há um ano, Carmen Reinhart, da Universidade de Maryland, e Kenneth Rogoff, de Harvard, explicam o que isso significa.* Eles notam as semelhanças entre as grandes crises financeiras nos países avançados e emergentes e, ao combinar uma série de casos severos, chegam a conclusões perturbadoras.

Com o declínio da produção, as crises bancárias são prolongadas, como eles notam, por dois anos, em média. Os colapsos do mercado de ativos são, com queda nos preços reais dos imóveis, de 35% em média ao longo de seis anos, com os preços dos ativos caindo em 55% por mais de 3,5 anos. A taxa de desemprego cresce, em média, em 7 pontos percentuais ao longo de quatro anos, enquanto a produção cai 9%.

Por último, o valor real da dívida do governo salta, em média, 86%. Isso ocorre apenas em pequena parte por causa do custo da recapitalização dos bancos. Isso se deve mais ao colapso da receita tributária.

Em quanto a atual crise se equiparará ao pior do passado? A continuidade da disposição do mundo em financiar pelo menos os Estados Unidos -apesar de não necessariamente os países deficitários menores e mais periféricos, como o Reino Unido- é uma razão para otimismo. Isso permite ao governo americano montar um vasto programa monetário e fiscal de resgate.

Mas como os professores Reinhart e Rogoff notam em outro trabalho, esta é uma crise global, não uma regional.** Ele nos recorda que os Estados Unidos ainda são, para o bem ou para o mal, o centro da economia mundial. Nas grandes crises das décadas recentes, a demanda americana resgatou o mundo. Isso foi verdadeiro durante os anos 90, após a crise asiática, e novamente após o crash do mercado de ações de 2000. Mas quem, fora seu governo, resgatará os Estados Unidos? E em que escala deve agir?

Esta questão é tratada por outro trabalho seminal, o mais recente de uma série co-escrita por Wynne Godley e dois outros para o Levy Economics Institute of Bard College.*** O argumento por trás é um com o qual os leitores desta coluna, a esta altura, já devem estar bem familiarizados.

O que torna o resgate tão difícil é a força que move a crise: a interação entre desequilíbrios externos e internos persistentes nos Estados Unidos e no restante do mundo. Os Estados Unidos e vários outros países deficitários crônicos têm, no momento, capacidade estrutural deficiente para produzir bens e serviços comerciáveis. O restante do mundo ou, mais precisamente, um número limitado de países com grandes superávits -particularmente a China- têm o oposto. Assim, a demanda consistentemente vaza dos países deficitários para aqueles com superávit.

Em tempos de grande demanda, isso não é problema. Em tempos de colapso dos gastos privados, como agora, é um problema imenso. Isso significa que os esforços de resgate americanos precisam ser grandes o bastante não apenas para aumentar a demanda por produção americana, mas também aumentar a demanda pela produção excedente de grande parte do restante do mundo. Este foi um fardo com o qual o Japão atingido pela crise não teve que lidar.

O que aconteceu aos gastos privados americanos deriva do colapso no crédito: entre o terceiro trimestre de 2007 e o terceiro trimestre de 2008, o empréstimo líquido para o setor privado americano caiu em cerca de 13% do produto interno bruto -de longe a queda mais acentuada na história da série. Com a tomada de empréstimo fora do quadro, a poupança privada líquida -a diferença entre a renda e o gasto- provavelmente permanecerá positiva por anos, à medida que os lares pagarem suas dívidas, por vontade própria ou não.

Dado o persistente déficit estrutural em conta corrente, quão grande o déficit fiscal precisa ser para equilibrar a economia em algo próximo do pleno emprego? Presumindo, por ora, que o setor privado tenha um superávit financeiro de 6% do PIB e o déficit estrutural em conta corrente seja de 4% do PIB, o déficit fiscal deve ser de 10% do PIB, indefinidamente.

E para chegar a este ponto o estímulo fiscal deve ser imenso. Um estímulo discricionário de US$ 760 bilhões, ou 5,3% do PIB, não é suficiente. Os autores argumentam que “mesmo com a aplicação de um estímulo fiscal quase inacreditavelmente grande, a produção não aumentará o suficiente para impedir que o desemprego continue crescendo ao longo dos próximos dois anos”.

Agora pense no que acontecerá se, após dois ou mais anos de déficits fiscais monstruosos, os Estados Unidos ainda estiverem atolados em desemprego e baixo crescimento. As pessoas se perguntarão por que o país está exportando tanto de sua demanda para sustentar os empregos no exterior. Elas vão querer a demanda de volta. A última vez que algo assim aconteceu -nos anos 30- o resultado foi uma rodada devastadora de desvalorização “empobreça o vizinho”, mais protecionismo. Nós podemos confiar que conseguiremos evitar esses riscos? Pelo contrário, o risco é extremo. Assim que a integração da economia mundial começar a reverter e o desemprego aumentar, os demônios de nosso passado -acima de todos, o nacionalismo- retornarão. As conquistas de décadas poderão ruir quase que da noite para o dia.

Mas nós temos uma oportunidade dourada de nos desviarmos desse curso. Nós temos um melhor conhecimento agora. Os Estados Unidos têm, em Barack Obama, um presidente com vasto capital político. Seu governo está determinado a fazer tudo o que puder. Mas os Estados Unidos não são fortes o suficiente para resgatar a economia mundial sozinhos. Eles precisam de ajuda, particularmente dos países com superávit. Os Estados Unidos e alguns poucos outros países avançados não podem mais absorver os excedentes mundiais de poupança e bens. Esta crise é a prova. O mundo mudou e as políticas também precisam. E isso deve ocorrer agora.

*As Conseqüências das Crises Financeiras, dezembro de 2008; http://www.economics. harvard.edu/faculty/rogoff/files/Aftermath.pdf; **Crises Bancárias, dezembro de 2008, Birô Nacional de Pesquisa Econômica, trabalho 14587, dezembro de 2008, http://www.nber.org; ***Perspectivas para os EUA e o Mundo, dezembro de 2008, http://www.levy.org

Tradução:George El Khouri Andolfato


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