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Retrospectiva 2008: Um choque de realismo na economia mundial

Posted in Crise by Blog Juízo Final on 15/01/2009

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Walter Eichelburg, Engenheiro.

Com o início da crise financeira no verão de 2007, iniciou-se um longo processo de decadência econômica. Em 2007, não foi possível observar quase nada na economia real. No outono de 2008 (outono europeu), todo o planeta entrou em recessão. Entrementes, a queda se agrava; em 2009 vem então a depressão.

O sistema bancário esteve em 2008 por várias vezes diante do “derretimento do núcleo”, mas pôde ser sempre sustentado através da selvagem impressão de dinheiro e garantias estatais. Alguns países já estão praticamente falidos. O resto seguirá este caminho em 2009.

O preço do ouro superou em 2008 por várias vezes a marca de 1.000 dólares/onça – sempre em ressonância com uma grave crise bancária. Consequentemente ele foi sempre pressionado para baixo.

O que aconteceu em 2007

Uma cronologia não seria completa sem a breve descrição da crise bancária.

Na realidade, a crise bancária iniciou-se no princípio de 2007, quando os agentes hipotecários dos EUA (Mortgage Lenders) começaram a falir – um após o outro. O lixo deles, composto de hipotecas subprimes, as quais eram liberadas a qualquer um que ainda respirasse, não foi mais aceito.

Em junho de 2007, veio o fim para os Junk-Bonds (títulos de qualidade inferior), assim como para as compras inter-empresariais via crédito. Em agosto de 2007, começou a esfriar o mercado de crédito interbancário. Até o momento esta situação não se alterou, independente da quantidade de dinheiro despejada pelos Bancos Centrais.

A partir de agosto, a crise apareceu na Alemanha. Primeiramente atingindo o banco de “médio porte” IKB, que operava também uma espécie de Hedge Fonds. Este assim chamado Structured Investment Vehicels (SIV) comprava US-CDOs por cifras bilionárias, com dinheiro emprestado proveniente da emissão de Asset Backed Commercial Paper (ABCP). O banco era o fiador deste veículo.

Entrementes, sabe-se que várias instituições negociaram tai SIVs, como por exemplo os bancos estaduais alemães (Bayern LB, Sachsen LB, West LB), e também o banco austríaco Eisenbahn ÖBB. Até os bancos de investimento norte-americanos negociaram tais SIVs. E este problema com as SIVs também está sem solução até o presente momento. As perdas dos bancos estaduais da Alemanha situam-se na casa dos 30 bilhões para cada banco. Até o momento, estes papéis não foram vendidos, e embora eles não tenham mais valor, espera-se por uma revalorização principalmente por parte do pequeno investidor.

1º Trimestre 2008

O início do ano foi caracterizado pela crise de ambas as seguradoras de crédito dos EUA: MBIA e Ambac, as quais seguravam estas CDOs. Estas empresas estão fora do mercado, mas sobrevivem ainda de alguma forma.

Sim, e então começou a queda das ações da Bolsa, primeiro na Ásia e Europa. Na China, os índices já perderam mais da metade do valor; na Europa Oriental e Rússia caíram mais ainda; também na Europa Ocidental as ações perderam 50%; na “Bolsa Oriental” de Viena ainda mais. Nestas praças, o pregão teve até que ser suspenso no verão e, nesta altura, iniciaram-se as perdas da Bolsa dos EUA, que já chegou em cerca de 50%.

Nesta altura foram descobertos outros “mecanismos de perda” dos bancos de investimento, como as Variable Interest Entities (VIE) ou as Auction Rate Securities (ARS), que trouxeram grandes perdas principalmente para o suíço UBS. Todos os bancos fazem o mesmo erro na época das bolhas e apuram prejuízos ao mesmo tempo à medida em que as especulações vão estourando. Até Lord Keynes já previu isso há mais de 80 anos atrás.

Então caiu a bomba do Bear Stearns a 14 de março de 2008: durante o fim de semana, este banco norte-americano de investimento teve que ser socorrido. Ele foi incorporado imediatamente pelo grande banco dos EUA, JP Morgan (o “Deus” de Wall Street). Motivo foi a grande perda com derivativos envolvendo ouro. Bear Stearns era um daqueles que pressionavam o preço do ouro. O preço do ouro subiu para mais de 1.000 dólares/onça durante a crise deste banco.

A 20 de abril lia-se na revista Spiegel:

Sistema financeiro à beira do colapso

O sistema financeiro internacional estava aparentemente muito mais próximo do abismo do que os especialistas acreditavam. Segundo o ex-diretor do Credit Suisse, Oswald Grübel, ele escapou do colapso por um fio.

Caso este comparativamente pequeno banco tivesse quebrado, milhões de clientes de bancos, mundo afora, iriam sacar suas economias e a situação sairia de controle, declarou o banqueiro. O sistema bancário ficaria paralisado por um período indeterminado. Por sorte, os Bancos Centrias reconheceram que eles deveriam tomar as rédeas de fato do mercado interbancário, disse Grübel: “Nesta crise financeira, nós estivemos por um fio do colapso do sistema. Isso nunca ocorreu antes.”

Ou seja, o sistema financeiro esteve à beira do colapso. A pergunta é quantas “Near-Misses” o sistema pode ainda aguentar?

Tivemos aqui a ruína do primeiro banco norte-americano de investimento e do primeiro FED Primary Dealer (comercializa papéis diretamente com o FED). Entrementes, o Bear Stearns se embrenhou no JP Morgan e a grande parte de seus funcionários foi demitida. Além disso, não existe mai um puro banco norte-americano de investimento.

2 º Trimestre 2008

O segundo trimestre (abril até junho) foi “calmo” em comparação com o trimestre anterior.

A situação dos bancos piorava cada vez mais, principalmente a do UBS, Merryll Lynch e Lehman Brothers. O prejuízo dos bancos foi avaliado então em cerca de 5 trilhões de dólares.

As bolhas imobiliárias na Europa Ocidental estouraram, principalmente na Grã-Bretanha e Espanha, dando início à recessão. Ainda não se nota praticamente nada no resto da Europa.

Os preços das matérias-primas alcançaram seu ponto alto em junho. Da mesma forma para os preços de produtos agrícolas e cereais. O primeiro mundo lamenta os preços altos; o terceiro mundo passa fome.

Aqui “Dr. Cooper”, o metal com o Dr. em economia – o preço do cobre mostra muito bem o desenvolvimento econômico:

O ponto alto foi alcançado no final de junho com cerca de 9.000 dólares/ton., desde então o preço do cobre desceu para 1/3, indicando uma pesada depressão. Cobre é usado em toda construção, automóveis, eletrônica etc.

Aqui o preço do pretróleo durante um ano:

Dentro de um ano o preço do petróleo subiu para 147 dólares/barril, no início de julho de 2008 e então despencou para 36 dólares/barril (fim de dezembro) – o mesmo valor do início de 2006. Dentro de meio ano, o preço do petróleo caiu, portanto, para 1/4 do valor, uma queda enorme. Todos os produtos derivados do petróleo que se ajustaram ao alto preço do petróleo têm agora problemas.

Os meios de comunicação estavam repletos de notícias sobre a enorme inflação no verão de 2008. Ela era de fato enorme e atingiu primeiramente bens essenciais, como produtos alimentícios e energia. Os preços dos combustíveis caíram por ora, mas não aqueles dos gêneros alimentícios.

3º Trimestre 2008

O terceiro triemstre se diferenciou dos anteriores principalmente no seguinte ponto: a queda dos preços das matérias-primas. Naturalmente o secretário do Tesouro norte-americano, Hank Paulson, ajudou aqui com seu Plunge Protection Team (PTT), pois as eleições nos EUA estavam batendo à porta e as pessoas lamentavam a inflação alta. Ou seja, foi aberta a temporada de caça às especulações das comodites. Todos os preços de matéria-prima começaram a cair a partir da 2ª quinzena de julho.

A matéria-prima amarela – ouro, não sofreu tanto como aquela da indústria primária, a prata:

O ouro “caiu” de US$ 1.000/onça, no meio de julho, para cerca de US$ 700/onça em novembro, ou melhor dizendo, ele foi pressionado para este patamar. A prata, como outras comodites, caiu cerca de 50%.

Tudo isso em US-dólar, em outras moedas, como o Euro, o ouro alcançou o ponto mais alto somente no outono de 2008. Por quê? Porque curiosamente o dólar subiu muito em relação a todas as outras moedas.

O grande De-Leveraging

Certamente o dólar estava no corredor da morte devido aos números dos fundamentos econômicos. O índice do dólar caiu abaixo dos 80 pontos. Então veio a mudança. Ela ocorreu com certeza em grande parte devido à manipulação dos Bancos Centrais.

Por outro lado explode a bolha da economia russa.

Ficou evidente que a “riqueza dos contos de fada” da oligarquia russa foi erigida apenas sobre o crédito do Ocidente, com o qual eles compraram seus pacotes de ações. A partir de agosto de 2008, eles receberam a “margin calls” dos bancos, ou seja, a exigência para apresentar o dinheiro ou o banco iria vender as ações penhoradas. Foi justamente isso que os bancos fizeram, despejando grande quantidade de ações no mercado. A bolsa russa teve que ser fechada por diversas vezes sempre devido à queda brusca do valor das ações.

Entrementes, os oligarcas perderam cerca de 300 bilhões de dólares, provavelmente muito mais, pois o capital sofre sempre primeiramente quando a bolsa cai. Toda economia russa possuia cerca de 500 bilhões de dólares em dívidas no Ocidente. Dólares foram necesários para poder saldar estas dívidas.

Desde esta época, a Rússia está em queda livre, pois a maior parte do crédito vinha do estrangeiro. Quase não existe poupança interna. Até mesmo a falência do Estado não está descartada, apesar da Rússia possuir uma grande reserva em dólar que pelo menos podem salvar a dívida com o estrangeiro. A queda do petróleo atinge fortemente a Rússia.

De uma forma geral, desde esta época a euforia dos mercados emergentes esvaeceu. De todos estes exóticos mercados o capital flui de volta, principalmente para os EUA. O Banco Central Europeu teve que distribuir dólares paa os bancos europeus, os quais ele buscou anteriormente no FED. Bancos europeus têm cerca de 2,7 trilhões de dólares nestes mercados, da Argentina até a Europa Oriental.

A bomba Fannie & Freddie

Não que os EUA não tenham qualquer problema: eles têm o suficiente, como por exemplo os dois parcialmente estatais financiadores imobiliários Fannie Mae e Fredie Mac. Estas duas instituições eram as únicas que compravam ainda em 2008 as hipotecas norte-americanas, formavam as Mortgage Backed Securities (MBS) e as vendiam novamente. Em julho e agosto, elas foram pressionadas. Das cerca de US$ 5,3 trilhões de MBS negociadas por Fannie & Freddie, a maior parte encontra-se como reservas monetárias nas mãos de Bancos Centrais ao redor do mundo. Principalmente o Banco Central chinês solicitava uma ajuda por parte dos EUA. Isso aconteceu em setembro. O governo norte-americano assumiu a garantia por Fannie & Freddie e suas MBS. Com isso, a dívida pública dos EUA aumentou 50%.

Lehamn e AIG

Em setembro de 2008 ficou ainda pior. A 14 de setembro, o banco de investimento dos EUA, Lehman Brothers, “faleceu”, ou melhor dizendo, foi recusado a ele um Bailout (ajuda) estatal. Aparentemente, o “carregamento” de derivados deste banco não era tão pesado como anteriormente foi com o Bear Stearns. Simultaneamente, desejou-se mostrar aos políticos o que acontece na falência de um banco.

A bancarrota do Lehman teve seus efeitos mundo afora. Nos EUA, algumas semanas depois, venciam papéis de seguros no montante de 380 bilhões em derivados Credit Default Swap (CDS) dos títulos do Lehman. Estes títulos foram negociados na média somente com 9% do valor nominal – uma amostra para a atual “valorização” dos títulos bancários. Na prática, a maioria dos bancos está falida.

Na Europa apareceram enormes perdas nos bancos e portadores de certificados do Lehman. A maior das trapalhadas ficou por conta do alemão KfW, que depositou ainda várias de centenas de milhões para o Lehman, horas depois de ser decretada a falência.

Alguns dias após a falência do Lehman, foi a vez da seguradora norte-americana AIG. Ela foi salva devido à quantidade de derivados CDS que possuia, pois sua falência levaria imediatamente o sistema financeiro dos EUA e da Europa à ruína. Até o momento, o Federal Reserve – FED, enfiou mai de US$ 150 bilhões neste poço sem fundo. A maior parte desta soma foi usada certamente para cobrir as perdas dos derivados.

Desde setembro de 2008, os Bancos Centrais imprimem dinheiro como selvagens. Com a palavra, o FED (do Casey Report 12/2008):

Como vemos, a grande “impressão de dinheiro” aconteceu em setembro de 2008. O que foi registrado no balanço do FED são, a princípio, papéis podres sem valor como ABCPs ou CDOs. No caso do Banco Central Europeu, a situação não era diferente:

O que se faz aqui é mera tática protelatória. Tenta-se reviver o atual sistema de expansão do crédito através dos bancos, mas isso não acontece mais desde 2007. A atual elite financeira assim como a política são incapazes de conduzir ainda com sucesso uma reflação a crédito segundo o velho esquema de 2001. A política de hoje de juro 0% não surtirá efeito. O sistema está em colapso.

4º Trimestre 2008

A fase mais séria da crise financeira começou para valer em setembro, nos EUA, com os casos de Fannie & Freddie, Lehman e AIG. Ao final de setembro, ela caiu sobre a Europa.

Durante um final de semana tiveram que ser socorridos pelo Estado, na Alemanha o Hypo Real Estate (HRE), na Bélgica o Fortis Bank e na Grã-Bretanha vários bancos. Todos estes bancos não puderam ser mais refinanciados no mercado interbancário. O risco foi reavaliado como muito grande.

Com o HRE, todo o mercado alemão de penhora entrou em perigo (e não se recuperou até agora). Este poço sem fundo engoliu por ora cerca de 50 bilhões de Euros em dinheiro de impostos e garantias estatais.

O Run aos bancos na Europa

Ele iniciou com o limite de saque e outros “problemas técnicos”. Algumas “Caixas Econômicas” da Alemanha estiveram “offline” por um determinado período. Outros bancos alemães e suíços também tiveram problemas.

Como explicação foi anunciado, entre outras, que um gambá teria mordido um certo cabo de alimentaço do centro de processamento das “Caixas Econômicas” da Alemanha.

A figura ao lado foi enviada por um leitor. Muito obrigado!

“Passem o dinheiro ou eu mordo”

Tal “explicação” inacreditável nos foi apresentada.Na realidade houve naturalmente um Run aos bancos, informação esta que nos foi omitida.

Aqui uma carta de um leitor:

Postbank – novamente atividade de um gambá em Berlin: Ontem à noite na filial do correio na Bundesplatz:
Na entrega de um pacote, percebi novamente o “problema técnico”. À minha pergunta, a senhora do caixa me assegurou que era realmente um problema técnico e nada tinha a ver com os problemas financeiros atuais. Pela primeria vez eu fui jantar em paz. Não porque eu acredite nas explicações, mas porque eu investi em metal precioso e guardei dinheiro em espécie.

Naquele momento, muitos pensaram nisso. Dinheiro em espécie foi sacado em larga escala. As reservas dos comerciantes de metal precioso foram liquidadas.

Primeiro aconteceu na Irlanda, então na Grécia, na Alemanha, na Áustria. Uma corrida aos bancos, que era considerada improvável. Os políticos entraram em pânico.

O salvamento generalizado

Primeiro foram os norte-americanos com US$ 700 bilhões para os bancos. Esta ajuda só foi aprovada pelo congresso depois de muito esforço.

Na realidade os Bancos Centrais podem cobrir o gargalo de liquidez dos bancos, todavia não podem alocar neles mais capital fresco. Isso só pode ser feito por investidores externos ou pelos Estados. Depois que os asiáticos e árabes já queimaram os dedos há um ano com a compra de ações, só resta o próprio Estado. Mas ninguém está disposto a deixar à míngua um grande banco, pois sua falência iria reforçar o Run para todos os bancos.

Ao invés disso, todos os países da União Européia salvaram seus bancos segundo critérios próprios. A ação mais bizarra ficou por conta da Irlanda, que garantiu todas as poupanças até a cifra de € 400 bilhões. A Alemanha “garantiu” € 500 bilhões e a Áustria € 100 bilhões. Todos estes pacotes econômicos iriam sgnificar naturalmente a felência do Estado, mesmo no caso da Alemanha com seus moderados € 500 bilhões. Sobre a astrônimica cifra da Irlanda, dispensamos qualquer comentário.

Declaração do deputado austríaco Hannes Swoboda:

Infelizmente foi necessário dar estas garantias, mas a princípio este dinheiro não está disponível e, segundo, caso ele fosse requisitado, isso significaria uma verdadeira catástrofe financeira. Mas este sinal de segurança com as cifras mencionadas foi necessário.

Os políticos estavam então conscientes que caso as garantias fossem utilizadas, isso significaria a falência dos Estados. Mas este jogo de azar foi aceito para poderem pemanecer aindano poder. A corrida aos bancos colocou todos em pânico.

O ex-chanceler austríaco Gusenbauer confirmou posteriormente no parlamento o Run nos bancos austríacos.

Notícia da APA de 14 de outubro:

“No momento em que o governo anunciou a segurança ilimitada das poupanças, ‘foi contida o Run aos bancos que aconteceu por uns dias’, disse o chanceler Alfred Gusenbauer (S) nesta tarde de terça-feira na reunião do Conselho Nacional. Isso mostra segundo a visão de Gusenbauer, a alta confiança dos cidadãos nas instituições do país.”

Ou seja, foi desta forma: eles não conheciam outra forma de lidar com a situação. Eles jogaram seus países no caldeirão da crise. Somente para ganhar alguns meses a mais.

A bancarrota dos países

Outros países como Islândia, Hungria, Ucrânia, Letônia, estão exatamente agora no centro do proceso de falência de seus Estados.

Isso acontece na maioria das vezes naqueles alegados países “fracos” que tentam salvar seus bancos. Ou seja, os investidores fogem também dos títulos do tesouro e da moeda. Crédito em moeda estrangeira é quase impossível pagar. Quem quiser trocar em algum banco da Europa Ocidental a Coroa islandesa ou o Forim húngaro, este terá uma desagradável surpresa. Apesar da ajuda do FMI, estas moedas não são mais aceitas. Na Islândia, a cotação oficial em relação ao Euro era de 150 Coroas, no mercado negro era de 350 Coroas – quase se consiga ainda Euros ou Dólares.

Para nós, o “primeiro” mundo, o abutre da falência dos países reservou o ano de 2009. Nós seremos atingidos como descrito em meus artigos “Caem as folhas estatais” e “Tudo ou nada”.

O desmoronamento da economia real

Mais e mais aparecem notícias teríveis sobre a economia real. Por exemplo, o Baltic Dry Index, o índice que reflete o transporte de matéria-prima e que caiu de 11.700 para menos de 800 pontos. O índice para navios de containers não está melhor. Isto se explica não apenas pelo menor consumo mundial de matéria-prima e produtos manufaturados, mas também pela indisponibilidade de cartas de crédito (financiamento das importações). O tráfego de navios caiu em pelo menos 40% nos últimos 3 meses. Também o sistema ferroviário está desativando seus vagões. As transportadoras estão dainte de uma onda de falências, pois os típicos “muros de caminhões” nas autoestradas desapareceram.

A indústria automobilística está em um processo maciço de encolhimento, pois existe cada vez menos financiamento para a compra de automóveis. A totalidade das indústrias de bens de produção desmorona drasticamente, como por exemplo, as fábricas de caminhões, máquinas. Estes produtos também foram comprados até agora através de crédito ou leasing.

Na Alemanha, a cada semana desaparece um fornecedor de autopeças. A indústria automobilística deu férias neste final de ano. Muitas fábricas permanecerão provavelmente fechadas em 2009. Sobre a situação da indústria automobilística dos EUA, nós não precisamos comentar, todos candidatos a desaparecer.

A disponibilidade de crédito retraiu bastante, indiferente àquilo que os políticos exijam dos bancos.

Aqui uma carta de um leitor da Alemanha – situação dos contratos da indústria química:

“Eu trabalho em uma grande SA alemã do ramo químico. Nós fabricamos sal para outras difrentes ramificações industriais, dentre elas também a indústria alimentícia mundo afora. Desde outubro deste ano, nós reduzimos drasticamente a produção. Durante o Natal nós manteremos somente o mínimo. E agora se segure: a partir do Natal, não há mais pedidos e também não há nada para o próximo ano! Nem ao menos apra a indústria alimentícia! Isso nunca aconteceu. O que isso poderia significar, cada um de nós tem que avaliar seriamente. Eu pensava anteriormente quase como você, mas tenho que reconhecer que a crise atingirá a Alemanha de forma muito mais dura do que é previsto.”

Não importa o que venha, tudo está sendo esmagado no momento.“Sorte” para os funcionários destas indústria, pois seus diretores não entenderam ainda do que se trata – o início de uma pesada depressão – a “greater Depression”, que muitos autores já citaram.

Mas logo eles irão entender. Provavelmente no início de 2009 virá uma onda enorme de demissão, que o mundo jamais viu igual. Então todo diretor irá querer salvar o que puder de suas empresas. Sem pedidos, qualquer funcionário supérfluo tornar-se-á um fardo que deverá ser dispensado o mais rápido possível. Nós já percebemos os primeiros sinais.

Depressão 2009

Todo o mundo entra agora em um sincronizada depressão, pior doq ue aquela dos anos 1930. Ela tomará corpo quando os países do “primeiro mundo” forem à falência. Mas isso é assunto para um próximo artigo – uma visão de 2009.

Os bote salva-vidas serão necessáriso logo, logo; o Titanic está afundando neste exato momento.

Walter Eichelburg, Engenheiro.

O autor do artigo não é um consultor financeiro, mas sim um investidor em Viena – NR.

Fonte: Inacreditavel

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ONU: Crescimento mundial será “próximo de zero” em 2009

Posted in Crise by Blog Juízo Final on 15/01/2009

738O crescimento da economia será “próximo de zero” em 2009, indicam as previsões apresentadas nesta quinta-feira pela Organização das Nações Unidas (ONU), que levou em conta a forte queda dos principais indicadores da produção no último trimestre do ano passado. O economista da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (Unctad), Heiner Flassbeck, afirmou que por causa da grande deterioração da economia no mundo todo não será possível alcançar nem o 1% de crescimento que se tinha previsto em setembro de 2008.

A previsão se situa agora no cenário mais pessimista que a entidade da ONU tinha previsto naquela época. Flassbeck reconheceu que, por enquanto, “não há nada que ofereça um estímulo positivo. O único ponto positivo é que os governos entenderam o quão grave é (a crise), embora tenham começado a atuar muito tarde em nível global”.

O economista declarou que a “Europa, apesar de estar em uma recessão mais profunda que os Estados Unidos, demorou a reagir”, a tal ponto que a Alemanha anunciou ontem o primeiro pacote de estímulos de destaque.

“A lição que precisamos aprender com o passado é que são necessários estímulos e que os Estados devem entrar para compensar com dívida pública a forte redução de dívida privada”, declarou.

“Estamos em um momento muito dramático. Praticamente não há países que tenham estabilizado sua situação, portanto os meses que virão serão muito duros”, antecipou o economista.

Segundo a avaliação da Unctad, o “grande perigo” que existe “não é a recessão, mas a deflação”, e para evitá-la são necessárias medidas significativas de estímulo.

O representante da entidade disse que a experiência mais importante de deflação remonta aos anos trinta, quando seu efeito principal foi o corte de salários em uma vã tentativa de estabilizar a situação, mas que terminou a tornando pior.

Neste cenário o consumo cai e o peso da dívida é maior, enquanto as políticas monetárias – às quais agora resta uma limitada margem de manobra diante das reduções das taxas de juros – perdem sua capacidade de estímulo.

Perguntado sobre a responsabilidade dos EUA nesta crise, Flassbeck afirmou que se o problema dos créditos de alto risco (subprimes) fosse a única causa “a situação não seria tão grave”.

No entanto, reconheceu que a explosão dos créditos podres nos EUA revelou as bolhas de especulação da bolsa, do preço das matérias-primas e dos mercados imobiliários.

Acrescentou que o nível de falta de regulação do mercado ao qual havia se chegado nos EUA “levou a excessos”, mas disse que a Europa e o Japão seguiram este caminho. “Ninguém sabe o que acontecerá este ano”, declarou o economista, após explicar que são necessários dados comparáveis em nível mundial.

“Isto é uma experiência totalmente nova e não se pode acreditar em nenhuma previsão. Ninguém sabe como será 2010. Alguns tentam tranqüilizar os governos dizendo que tudo o que baixa tem que subir em algum momento, mas isto não é verdade”, declarou.

Por outro lado, Flassbeck afirmou que o impacto da crise nos países em desenvolvimento será múltiplo e provocará um maior custo do crédito e a queda do fluxo de capitais externos.

Ainda pior estão os países que estão endividados em algumas das principais divisas, “os países que estão endividados em moeda ruim”, disse, diante das quais numerosas moedas locais se desvalorizaram.

Neste contexto, afirmou que os países pobres precisam de assistência do mundo desenvolvido e reivindicou que “pelo menos se mantenha a ajuda oficial ao desenvolvimento nos níveis atuais e não se corte como aconteceu no passado”.

Fonte: EFE

Wolf: Por que o plano de Obama ainda é inadequado e incompleto

Posted in Crise by Blog Juízo Final on 15/01/2009

Financial Times
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Colunista do Financial Times

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Na semana passada, o presidente eleito Barack Obama revelou devidamente seu plano de recuperação e reinvestimento americanos. Seu título foi aptamente escolhido, pois Obama falou, surpreendentemente, como se as políticas do restante do mundo não tivessem efeito sobre o destino dos Estados Unidos. Ele também falou como se um grande estímulo fiscal fosse suficiente para restaurar a prosperidade. Se é nisso que ele acredita, Obama está prestes a ter um choque. As dificuldades que ele confronta são muito mais profundas e mais globais que isso.

Eu tenho pouca dúvida de que seus assessores estão dizendo isso ao presidente eleito. Os pontos que estão -ou devem estar- apresentando para ele são estes.

Primeiro, os autores de políticas japoneses que disseram a todos que os Estados Unidos corriam o risco de cair em um período prolongado de fraqueza econômica estavam certos. Para entender por que isso é verdade, é preciso ler o livro brilhante de Richard Koo, do Instituto de Pesquisa Nomura.* Nele, ele explica como a combinação de queda dos preços dos ativos com alto endividamento força o setor privado a parar de tomar empréstimos e a pagar a dívida. O governo então surge inevitavelmente como tomador de empréstimo e gastador de último recurso. Como o governo japonês sabia disso, o país sofreu uma recessão prolongada em vez de um colapso.

Por muito tempo se argumentou que os Estados Unidos não poderiam sofrer como o Japão. Isto está errado. É verdade que os Estados Unidos têm três vantagens em relação ao Japão: a destruição da riqueza no estouro da bolha japonesa foi de três vezes o produto interno bruto, enquanto as perdas americanas certamente serão bem menores; as empresas não-financeiras americanas não parecem exageradamente endividadas; e, apesar dos esforços dos oponentes de marcar ativos a mercado, o reconhecimento das perdas ocorreu bem mas cedo.

Em outros aspectos, entretanto, os Estados Unidos estão mais vulneráveis do que o Japão, após sua recente farra de dívida. O restante da economia mundial foi grande e dinâmica o suficiente para sustentar as exportações japonesas, mas o mundo todo agora está em recessão; além disso, os Estados Unidos são um país tanto deficitário quanto devedor. A sra. Watanabe confia em seu governo. Quanto ela confiará no Tio Sam? Quanto confiará Hu Jintao?

Qualquer complacência em relação às perspectivas de recuperação dos Estados Unidos é perigosa. Além disso, o fato dos Estados Unidos terem um déficit estrutural em conta corrente tem peso no segundo ponto que os assessores de Obama devem apresentar. O estímulo fiscal é um paliativo necessário para uma economia sobrecarregada de dívida e afligida por queda nos preços dos ativos. Mas a provável longevidade e escala dos déficits fiscais necessários são bastante assustadoras.

Na coluna da semana passada (“Escolhas feitas em 2009 moldarão o destino do planeta”, 7 de janeiro) eu argumentei que o setor privado americano sobrecarregado de dívida agora seria forçado a economizar. O excesso de renda sobre os gastos no setor privado poderia ser, digamos, de 6% do PIB por um período prolongado. Se o atual déficit em conta corrente estrutural permanecesse em 4% do PIB, o déficit fiscal geral precisaria ser de 10% do PIB. Além disso, este seria o déficit estrutural -ou pleno emprego.

O Escritório de Orçamento do Congresso (CBO, na sigla em inglês) prevê que a produção americana será 7% abaixo do potencial nos próximos dois anos, se as políticas não mudarem. Nesse caso, o déficit de fato agora seria muito maior do que o estrutural. É fácil ver, portanto, por que os críticos argumentam que o plano de Obama de um estímulo fiscal adicional de 5% do PIB ao longo de dois anos é pequeno demais, apesar do CBO prever um déficit base de 8,3% do PIB neste ano. Também é fácil entender por que muitos fazem fortes objeções a reduções de impostos, já que é mais provável que o dinheiro das reduções seja poupado quanto maior for o pacote -e, além disso, os impostos claramente precisarão ser aumentados a longo prazo.

Mas o ponto principal, entretanto, não é que o pacote precise ser maior, apesar de precisar. É que escapar de déficits imensos e prolongados será muito difícil. Enquanto o setor privado buscar reduzir sua dívida e a conta corrente estiver em déficit estrutural, os Estados Unidos terão que incorrer em grandes déficits fiscais caso queiram sustentar o pleno emprego.

Isso leva ao terceiro ponto que os assessores de Obama devem apresentar. O de que incorrer em imensos déficits fiscais por anos é possível. Mas os Estados Unidos só poderiam escapar impunes disso caso o calote esteja fora de questão.

No final das guerras napoleônicas, o Reino Unido tinha uma relação entre dívida pública e PIB de 270%. Isso foi reduzido ao longo de um século: o crescimento, o padrão ouro e o compromisso com orçamentos equilibrados fizeram o truque. A questão é, quanta dívida os Estados Unidos (ou o Reino Unido) podem acumular agora. Meu palpite é de que os Estados Unidos podem esperar incorrer em grandes déficits por anos, caso sejam usados para financiar a criação de ativos de alta qualidade. Mas a política não pode perdurar com segurança ao longo de dois mandatos presidenciais.

Mas, diferente da crença disseminada nos Estados Unidos, um rápido retorno a pequenos déficits fiscais, alto emprego e crescimento rápido não ocorrerá espontaneamente. É necessário promover primeiro mudanças estruturais nas economias dos Estados Unidos e do mundo. Este é o último ponto que os assessores de Obama devem apresentar.

E quais são essas mudanças?

Primeiro, deve haver um programa crível para o que os americanos chamam de “desalavancagem”. Os Estados Unidos não podem arcar com anos de redução dolorosa de dívida no setor privado -um processo que ainda mal começou. A alternativa é uma redução forçado dos valores dos ativos podres no setor financeiro e uma maior recapitalização fiscal ou swaps de dívida por ações. Isso também significa uma falência em massa dos lares insolventes e reduções forçadas nos valores das hipotecas.

Tudo isso também levaria a grandes aumentos na dívida pública. Mas esses aumentos seriam provavelmente muito menores do que os gerados por uma década de imensos déficits fiscais. A meta é ter um sistema financeiro mais enxuto e melhor capitalizado e um balancete mais saudável do setor privado não-financeiro, o mais cedo possível. O programa de alívio de ativos com problemas deveria ser usado para isso. Ele precisará ser maior.

Segundo e mais importante, o déficit estrutural em conta corrente precisa diminuir. O setor privado americano não está mais em posição de incorrer em imensos déficits financeiros para compensar os déficits externos que drenam a demanda. O setor público pode fazê-lo apenas por alguns poucos anos. A longo prazo, a economia mundial deve ser reequilibrada de forma sustentável e saudável. Este é um enorme desafio para a diplomacia econômica internacional. Também é um elemento essencial para uma política doméstica sólida.

Obama deve ser plenamente persuadido sobre estes últimos pontos. Para que os déficits fiscais possam cair acentuadamente a médio prazo, como precisam, o novo presidente precisa de programas eficazes para desalavancagem do setor privado e para uma reforma e ajuste globais. O destino dos Estados Unidos não deve ser determinado em isolamento. O que isso significa será o tema da coluna da próxima semana.

* The Holy Grail of Macroeconomics: Lessons from Japan’s Great Recession – Wiley, 2008

Tradução: George El Khouri Andolfato