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Wolf: por que o presidente Obama precisa curar a economia mundial doente

Posted in Crise by Blog Juízo Final on 28/01/2009

Financial Times

wolfd07-tnMartin Wolf, Colunista do Financial Times

Pobre presidente Barack Obama. Ele chegou ao poder em parte devido à crise econômica global. Ele, grande parte dos americanos e o restante do mundo concordam que os Estados Unidos quebraram a economia mundial e agora têm o dever de consertá-la. Infelizmente, este consenso é falso. A crise é um produto da economia global. Ela não pode ser curada pelos Estados Unidos sozinhos.

Felizmente, Obama tem a autoridade necessária para liderar o mundo para uma solução: suas mãos estão limpas e sua falta de desejo de desculpar seu país é evidente. Também é do interesse de seu país e do mundo que a economia mundial seja devolvida a uma situação mais firme. Se esse esforço fracassar, eu temo que um ressurgimento do protecionismo será o resultado.

E qual é o fracasso mundial? É a interação maligna entre a propensão de alguns países de superávit excessivo crônico e a propensão oposta de outros países de demanda excessiva. Este é o tema do meu livro “A Reconstrução do Sistema Financeiro Global”. Mas o principal ponto a respeito da economia global atual é que o endividamento dos lares, alimentado pelo crédito, que apoiou a demanda excessiva nos países deficitários, sofreu uma parada repentina. A menos que isso seja revertido, a oferta excessiva dos países com superávit também sofrerá um colapso. Esta declaração segue como uma questão de lógica: na esfera mundial, a oferta deve igualar a demanda. A questão é apenas como deve ocorrer o ajuste.

Michael Pettis, da Universidade de Pequim, expôs o argumento no “Financial Times” em 14 de dezembro de 2008. O professor Pettis vê o mundo dividido em dois campos econômicos: em um estão os países com sistemas elásticos de financiamento do consumidor e alto consumo; no outro estão os países com alta poupança e investimento. Os Estados Unidos são o exemplo mais importante do primeiro e a China o mais importante do segundo. A Espanha, o Reino Unido e a Austrália são miniversões dos Estados Unidos; Alemanha e Japão são versões maduras da China contemporânea.

Eu argumentei que a força motriz por trás desses “desequilíbrios” é a política adotada pelos países com superávit, particularmente a China, cujos superávits cresceram de forma particularmente rápida. Uma taxa de câmbio administrada, acúmulos imensos de reservas de moeda estrangeira e esterilização de suas conseqüências monetárias, disciplina fiscal rígida e altos lucros retidos pelas empresas geraram taxas de poupança nacional bem acima de 50% do produto interno bruto e superávits em conta corrente de mais de 10%. A poupança dos lares parece gerar menos de um terço da poupança total. Por sua vez, o investimento é despejado na expansão da oferta, incluindo a de produtos exportados: a razão entre exportações e PIB da China saltou de 38% do PIB, no início de 2002, para 67% em 2007.

A visão de que os excessos dos países deficitários foram em parte uma resposta ao comportamento dos países com superávit é compartilhada por vários autores de políticas, incluindo Hank Paulson, o secretário do Tesouro americano que está de saída. Zhang Jianhua, do Banco Popular da China, teria declaro que “esta visão é extremamente ridícula, irresponsável e uma ‘lógica de gângster'”. No seu entender, o padrão dos déficits e superávits globais foi causado exclusivamente pelos autores de políticas ocidentais, particularmente as políticas monetárias frouxas do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) e expansão desregulamentada do crédito.

Mas, independente de quem seja o maior responsável, um ponto é certo: as imensas bolhas de preços de ativos possibilitaram o excesso de oferta de alguns países, particularmente a China. Desde a crise financeira asiática de 1997-98, o mundo desenvolvido -e os Estados Unidos em particular- experimentaram, sucessivamente, a maior bolha no mercado de ações e a maior bolha imobiliária alimentada pelo crédito da história. Esta era acabou. Nós lidaremos com suas consequências por anos.

E o que acontecerá agora? A implosão da demanda dos setores privados dos países deficitários financeiramente enfermos pode acabar de dois modos, ou com aumentos compensadores na demanda ou com contrações brutais na oferta.

Se ocorrerem contrações na oferta, os países com superávit estarão particularmente em risco, já que dependem da disposição dos países deficitários de manter os mercados abertos. Esta foi a lição aprendida pelos Estados Unidos nos anos 30. Os países com superávit gostam de condenar seus clientes de serem perdulários. Mas quando a gastança para, os primeiros são seriamente prejudicados. Se tentarem subsidiar seu excesso de oferta, em resposta à queda na demanda, a retaliação parece certa.

Obviamente, a expansão da demanda é a melhor solução. A pergunta é onde e como? No momento, grande parte da expansão deverá vir do orçamento federal americano. Não se sabe se isso funcionará. Mesmo os Estados Unidos não podem incorrer em déficits fiscais de 10% do PIB indefinidamente. Grande parte da expansão necessária na demanda global deve vir dos países com superávit.

A administração deste ajuste é o maior desafio para o grupo das 20 economias avançadas e emergentes, que se reunirão em Londres no início de abril. Obama deve assumir a liderança. Ele pode -e deve- dizer que espera que estes ajustes sejam feitos, mas entende que levarão tempo. Ele também pode sustentar medidas monetárias e fiscais excepcionais a curto prazo, se os principais parceiros comerciais de seu país fizerem os ajustes necessários a médio prazo em seus gastos. A China, em particular, precisa criar uma economia liderada pelo consumo. Isso é do interesse da China. Também é do interesse do mundo.

Mas isso não é o que os Estados Unidos devem propor. Se a economia mundial for menos dependente de bolhas destrutivas, mais do capital excedente do mundo precisa fluir para investimento nas economias emergentes. O problema, entretanto, é que esses fluxos sempre levaram a crises. Foi o motivo para as economias emergentes buscarem acumular vastas reservas de moeda estrangeira nesta década. É essencial, portanto, fazer com que a economia mundial dê mais apoio ao crédito líquido das economias emergentes.

O que será necessário para isto é um seguro bem maior e mais eficaz contra riscos ao sistema do que o Fundo Monetário Internacional é capaz de fornecer. Um passo crucial é uma reestruturação da governança do FMI, para melhorar sua resposta às necessidades dos tomadores de empréstimo responsáveis. Uma das idéias que Obama deve propor é a formação de um comitê de alto nível para recomendar uma reestruturação radical das instituições globais, tendo em vista a redução dos riscos de crises nos mercados emergentes que precederam a era das bolhas nos países avançados.

Vamos deixar claro sobre o que está em jogo. É essencial consertar esta encrenca imensa atual. Mas também é evidente que uma economia mundial aberta será insustentável se ela permanecer dependente de bolhas. No momento, o risco do colapso da globalização não é pequeno. Obama está presente na recriação do sistema econômico mundial. É um desafio que ele precisa encarar.

Fonte: Uol

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