Juízo Final Blog

Martin Wolf: como a recessão global atual segue o mesmo caminho da Grande Depressão

Posted in Crise, Fim do Dólar, Nova Ordem Mundial by Blog Juízo Final on 22/06/2009

wolfd07-tnMartin Wolf
Financial Times

.

Brotos verdes estão surgindo. Ou é o que nos dizem. Mas antes de concluir que a recessão acabará em breve, nós precisamos perguntar o que a história nos diz. Ela é um dos guias que temos para nosso presente apuro. Felizmente, nós temos dados. Infelizmente, a história que contam é uma infeliz.

Dois historiadores econômicos, Barry Eichengreen, da Universidade da Califórnia, em Berkeley, e Kevin O’Rourke, do Trinity College, em Dublin, forneceram quadros que valem mais do que mil palavras.*

Em seu trabalho, os professores Eichengreen e O’Rourke estabeleceram o início da atual recessão global como sendo abril de 2008 e o da Grande Depressão como sendo junho de 1929. E quais são as conclusões deles sobre onde estamos a pouco mais de um ano de recessão? A má notícia é que esta recessão equivale plenamente à etapa inicial da Grande Depressão. A boa notícia é que o pior ainda pode ser evitado.

Primeiro, o produto industrial global acompanha o declínio do produto industrial durante a Grande Depressão de forma terrivelmente próxima. Dentro da Europa, o declínio do produto industrial da França e da Itália é pior do que a esta altura nos anos 30, enquanto o do Reino Unido e Alemanha são equivalentes.

Os declínios nos Estados Unidos e Canadá também estão próximos daqueles dos anos 30. Mas o colapso industrial do Japão está pior do que nos anos 30, apesar de uma recuperação muito recente.

Segundo, o colapso no volume do comércio mundial tem sido bem pior do que durante o primeiro ano da Grande Depressão. O declínio no comércio mundial no primeiro ano equivale ao dos primeiros dois anos da Grande Depressão. Isso não ocorreu por causa de protecionismo, mas devido ao colapso da demanda no setor manufatureiro.

Terceiro, apesar da recente recuperação, o declínio nos mercados de ações mundiais é bem maior do que no período correspondente da Grande Depressão. Os dois autores resumem de forma clara: “Globalmente, nós estamos repetindo ou em uma situação ainda pior do que a Grande Depressão (…) Este é um evento do tamanho da Depressão”.

Mas o que deu à Grande Depressão seu nome foi o declínio brutal ao longo de três anos. Desta vez o mundo está aplicando as lições extraídas daquele evento por John Maynard Keynes e Milton Friedman, dos dois economistas mais influentes do século 20. As políticas de resposta sugerem que o desastre não se repetirá.

Os professores Eichengreen e O’Rourke descrevem este contraste. Durante a Grande Depressão, a taxa de desconto média das sete principais economias nunca caiu abaixo de 3%.

Hoje, ela está próxima de zero. Até mesmo o Banco Central Europeu, o mais linha-dura dos grandes bancos centrais, reduziu sua taxa para 1%. De novo, durante a Grande Depressão, a oferta de dinheiro sofreu um colapso. Mas desta vez ela continuou crescendo.

De fato, a combinação de um forte crescimento monetário com profunda recessão coloca em dúvida a explicação monetarista para a Grande Depressão. Finalmente, a política fiscal está muito mais agressiva desta vez.

No início dos anos 30, o déficit médio dos 24 países significativos permaneceu abaixo de 4% do produto interno bruto. Hoje, os déficits serão muito maiores. Nos Estados Unidos, o déficit geral do governo deverá ser de quase 14% do PIB. Tudo isso é consistente com as conclusões de um estudo já clássico de Carmen Reinhart, da Universidade de Maryland, e de Kenneth Rogoff, de Harvard.**

As crises financeiras causam profundas crises econômicas. O impacto de uma crise financeira global deve ser particularmente severo. Além disso, “o valor real da dívida do governo tende a explodir, aumentando em média 86% nos grandes episódios pós-Segunda Guerra Mundial”. O principal motivo não são os “resgates” aos bancos mas sim as recessões.

Após o fato, o empréstimo privado descontrolado se transforma em gastos públicos e montanhas de dívidas. Os governos com crédito não aceitarão a alternativa de uma grande recessão. A questão é se o atual estímulo sem precedente compensará o efeito do colapso financeiro e o acúmulo sem precedente de dívida do setor privado nos Estados Unidos e em outros lugares.

Se o primeiro vencer, nós veremos em breve um desvio positivo do caminho da Grande Depressão. Se o segundo vencer, não veremos. O que todo mundo espera está claro. Mas o que devemos esperar? Nós estamos vendo uma corrida entre o reparo dos balancetes privados e o reequilíbrio global da demanda, de um lado, e a sustentabilidade do estímulo, do outro. Uma demanda robusta do setor privado só retornará assim que os balancetes dos lares altamente endividados, das empresas com acúmulos de empréstimos e setores financeiros subcapitalizados forem reparados ou quando os países com altas reservas consumirem ou investirem mais.

Nada disso provavelmente será rápido. De fato, é muito mais provável que leve anos, dado os acúmulos extraordinários de dívida da última década. Ao longo dos últimos dois trimestres, por exemplo, os lares americanos pagaram apenas 3,1% de suas dívidas. A desalavancagem é um processo demorado. Enquanto isso, o governo federal se tornou o único tomador de empréstimo significativo. De forma semelhante, o governo chinês pode expandir rapidamente o investimento. Mas é mais difícil elevar os níveis de consumo por meio de políticas.

A grande probabilidade é de que a economia mundial precisará de políticas monetárias e ficais agressivas por muito mais tempo do que muitos acreditam. Isso deixará nervosos os autores de políticas e os investidores. Dois riscos opostos surgem. Um é o de que o estímulo seja retirado cedo demais, como aconteceu nos anos 30 e no Japão no final dos anos 90.

Então ocorrerá uma recaída na recessão, porque o setor privado ainda é incapaz de, ou não está disposto a, gastar. O outro risco é o de que o estímulo seja retirado tarde demais. Isso levaria a uma perda da confiança na estabilidade monetária, agravada pelas preocupações em torno da sustentabilidade da dívida pública, particularmente nos Estados Unidos, os fornecedores da moeda-chave mundial.

No limite, os altos preços em dólar dos commodities e o aumento das taxas de juros de longo prazo sobre os títulos do governo podem colocar os Estados Unidos -e as economias mundiais- em uma estagflação maligna. Diferente de alguns alarmistas, eu não vejo sinais desse pânico no momento. Mas poderia acontecer. No ano passado a economia mundial entrou em recessão. As políticas de resposta foram imensas. Mas aqueles que estão certos de que estamos no início de uma robusta recuperação liderada pelo setor privado quase certamente estão iludidos.

A corrida para a recuperação plena provavelmente será longa, difícil e incerta.

*”Um Conto de Duas Depressões”, junho de 2009, http://www.voxeu.org ** “O Pós Crises Financeiras”, estudo 14656, http://www.nber.org

Tradução: George El Khouri Andolfato

Fonte: Financial Times

Anúncios

Crise Mundial: China e outros credores fogem dos Títulos do Tesouro dos EUA

Posted in Crise, Fim do Dólar, Nova Ordem Mundial by Blog Juízo Final on 20/06/2009

zerodolarA China reduziu no final de Abril, pela primeira vez em mais de um ano, a sua carteira de Títulos do Tesouro dos Estados Unidos num sinal de que as autoridades de Pequim estão preocupadas com a provável desvalorização dos activos “dolarizados”, noticiou a agência chinesa Xinhua.

De acordo com dados do Departamento do Tesouro norte-americano, em comparação com Março, o volume daqueles títulos de dívida diminuiu em USD 4,4 mil milhões/bilhões (mm/bi), fixando-se em USD 763,5 mm/bi.

“É um montante bastante pequeno (…) mas é um sinal que pode reflectir a actividade dos investidores institucionais chineses”, disse à agência Tan Yaling, especialista do Instituto para Derivativos Financeiros da Universidade de Pequim.

Outro especialista, Zhang Bin, investigador do Instituto Internacional de Economia e Política da Academia Chinesa de Ciências Sociais, disse à Xinhua que “por o montante ser pequeno não sabemos se a redução vai continuar. Mas o corte mostra prudência dos governos ou instituições face aos Títulos do Tesouro norte-americanos.” Zhang frisou que a fraqueza do dólar constitui uma ameaça à rentabilidade dos investimentos chineses na divisa americana.

Outros países, como o Japão, a Rússia e o Brasil, seguiram o exemplo da China, em Abril, e também reduziram a sua exposição àquele tipo de instrumentos financeiros.

Estas movimentações começaram em Março como reacção as decisões do governo norte-americano de comprar obrigações da sua dívida pública. O facto foi interpretado pelo mercado como um sinal da deterioração da capacidade da maior economia do mundo para honrar os compromissos financeiros com os seus credores. Por esta razão, o dólar e todos os activos com ele relecionados entraram de imediato numa curva descendente.

A China é o maior detentor de Títulos dos Tesouro dos EUA. Em Março, o primeiro-ministro Wen Jiabao mostrou-se preocupado com o descontrolo da dívida norte-americana e pediu à administração Obama que “garanta a segurança dos activos chineses.”

Fonte: MRA Alliance/Xinhua

A crise como via para a montagem de um estado totalitário global

Posted in Crise, Fim do Dólar, Nova Ordem Mundial by Blog Juízo Final on 20/06/2009

fechoml8

por Olga Chetverikova

Enquanto a crise financeira e económica mundial vai atingindo o seu auge, os dirigentes da comunidade ocidental andam a tentar instilar na humanidade a ideia de que essa revolução vai acabar por ‘transformar o mundo numa coisa diferente’.

Apesar de a imagem da ‘nova ordem mundial’ se manter vaga e confusa, a ideia central é clara. Na sequência desse raciocínio é preciso instituir um governo global único, se quisermos evitar que reine o caos geral. Volta não volta, os políticos ocidentais referem à necessidade de uma ‘nova ordem mundial’, de uma ‘nova arquitectura financeira mundial’, ou de qualquer tipo de ‘controlo supranacional’, chamando-lhe um ‘Novo Acordo’ para todo o mundo.

Nicolas Sarkozy foi o primeiro a falar nisso, quando se dirigiu à Assembleia-Geral da ONU em Setembro de 2007 (ou seja, antes da crise).

Durante a reunião de Fevereiro de 2009 em Berlim, destinada a preparar a cimeira dos G20, Gordon Brown repetiu o mesmo, dizendo que era necessário um Novo Acordo à escala mundial. Estamos conscientes, acrescentou, que no que diz respeito aos fluxos financeiros mundiais, não conseguiremos sair desta situação apenas com a ajuda das entidades puramente nacionais.

Precisamos de entidades e de vigilantes mundiais para conseguir que as actividades das instituições financeiras que operam nos mercados mundiais se nos abram totalmente. Tanto Sarkozy como Brown são protégés dos Rothschilds.

Algumas declarações feitas por certos representantes da ‘elite global’ indicam que a actual crise está a ser utilizada como um mecanismo para provocar o agravamento de alguns motins sociais que poderão levar a humanidade – mergulhada como já está no caos e assustada com o espectro duma violência generalizada – a reclamar espontaneamente a intervenção de um árbitro ’supranacional’ com poderes ditatoriais nas questões mundiais.

Os acontecimentos estão a seguir o mesmo caminho da Grande Depressão de 1929-1933: uma crise financeira, uma recessão económica, conflitos sociais, a instituição de ditaduras totalitárias, incitando a uma guerra para concentrar o poder, e o capital, nas mãos dum pequeno grupo. Mas, desta vez, a questão central é a fase final da estratégia de ‘controlo global’, em que com um sopro se derruba a instituição da soberania estatal nacional, seguindo-se uma transição para um sistema de poder privado de elites transnacionais.

Já nos finais dos anos de 1990, David Rockefeller, autor da ideia de que o poder privado deve substituir os governos, disse que nós (o mundo) estávamos no limiar de mudanças globais. Tudo o que é preciso, prosseguiu, é uma crise qualquer a grande escala que faça com que o povo aceite a nova ordem mundial. Jacques Attali, conselheiro de Sarkozy e antigo chefe do EBRD [European Bank for Reconstruction and Development], afirmou que as elites tinham sido incapazes de resolver os problemas da divisa dos anos 30.

Receava, disse ele, que voltasse a acontecer um erro semelhante. Primeiro vamos travar guerras, continuou, e deixar morrer 300 milhões de pessoas. Só depois é que virão as reformas e um governo mundial. Não seria melhor pensar já nesta fase num governo mundial? perguntou. Henry Kissinger afirmou a mesma coisa. Em última análise, a principal tarefa é definir e formular as preocupações gerais da maior parte dos países, e também de todos os principais estados no que se refere à crise económica, tendo em conta o receio colectivo de um jihad terrorista. Depois, tudo isso tem que ser transformado numa estratégia de acção comum… E assim a América e os seus parceiros potenciais têm uma oportunidade única de transformar o momento da crise numa visão de esperança.

O mundo está a ser convencido a aceitar a ideia da ‘nova ordem’ a pouco e pouco para impedir que surjam incidentes que poderão muito bem levar a que os protestos universais contra as condições cada vez piores da existência humana entrem num ‘caminho errado’ e deixem de poder ser controlados.

A principal coisa que a Fase Um conseguiu concretizar foi iniciar uma discussão de amplo espectro sobre o ‘governo global’ e a ‘não aceitação do proteccionismo’ com ênfase no ‘desencanto’ dos modelos de estados-nacionais para a saída da crise. Esta discussão continua tendo como pano de fundo as pressões da informação que ajudam a construir as ansiedades humanas, o medo, e a incerteza.

Vejamos algumas dessas acções da informação: previsões da OMS de que provavelmente 1,4 mil milhões de pessoas ficarão abaixo do limiar de pobreza em 2009; um aviso do director-geral da OMS de que se perfila no horizonte o maior declive comercial mundial da história do pós-guerra; uma declaração de Dominique Strauss-Kohn do MFI ( protégé de Sarkozy) de que está iminente um colapso económico mundial se não for implementada uma reforma a grande escala do sector financeiro da economia mundial, colapso esse que muito provavelmente arrastará consigo não apenas o desassossego social mas também uma guerra.

Foi com este pano de fundo que foi avançada a ideia de instituir uma divisa mundial comum como pedra fundamental da ‘nova ordem mundial’. Mas os verdadeiros cérebros deste projecto de longa data continuam na sombra. De notar que há um ou outro representante da Rússia empurrado para a linha da frente. Faz lembrar a situação antes da I Guerra Mundial, em que os círculos anglo-franceses, que possuíam alguns planos elaborados para uma nova divisão do mundo, instruíram o ministro dos estrangeiros russo para traçar um programa geral para a Entente Cordiale.

Esta passou à história como o ‘programa Sazonov’, apesar de a Rússia não ter desempenhado um papel independente nessa guerra, o qual desde o início foi montado para servir o sistema de interesses da elite financeira britânica.

A 19 de Março, Henry Kissinger chegou a Moscovo na qualidade de membro do The Wise Men (James Baker, George Schultz, e outros), que se reuniram com os dirigentes russos antes da cimeira do G20. Dmitry Trenin, director do Centro Carnegie de Moscovo e participante na última reunião americana dos Bilderbergers, considerou essa reunião como um ’sinal positivo’.

A 25 de Março, o Moskovsky Komsomolets publicou um artigo ‘A Crise e os Problemas Mundiais’, de Gavriil Popov (actual presidente da União Internacional de Economistas) que relatou abertamente o que normalmente é discutido à porta fechada. O artigo fazia referência ao Parlamento Mundial, ao Governo Mundial, às Forças Armadas Mundiais, à Força Policial Mundial, ao Banco Mundial, à necessidade de colocar sob controlo internacional as armas nucleares, às capacidades de produção de energia nuclear, de toda a tecnologia de foguetões espaciais, e dos minerais do planeta, à imposição de limites de natalidade, à limpeza do conjunto genético da humanidade, ao encorajamento de pessoas intolerantes à incompatibilidade cultural e religiosa, e a outras coisas do mesmo género. Os “países que não aceitarem as perspectivas globais”, diz Popov, “devem ser expulsos da comunidade mundial”. Claro que o artigo do Moskovsky Komsomolets não revela nada de novo que nos permita compreender a estratégia da elite global.

O importante é outra coisa. Sugere-se a instituição de uma ordem policial totalitária e a eliminação dos estados nacionais, como um amplo programa de acção, e recomenda-se aquilo que tanto os liberais, como os socialistas, como os conservadores, sempre consideraram um ‘novo fascismo’, como o único caminho salutar possível para toda a humanidade.

Há quem queira que a discussão destes projectos se torne uma norma. Neste contexto, há alguns representantes da Rússia ‘de confiança’ que estão a ser empurrados para a primeira linha; a Rússia que será a principal vítima da política de pilhagem total se o ‘governo global’ vier a ser uma realidade. O G20 não discutiu a questão da divisa mundial comum, porque ainda não chegou a altura própria para tal.

A própria cimeira foi um passo em frente no caminho para o caos porque, se as suas decisões forem seguidas cegamente, a situação socioeconómica mundial só poderá piorar e, para citar Lyndon LaRouche, irão ‘liquidar o doente’. Entretanto, a crise está a ser exacerbada e os analistas andam a predizer uma era de desemprego maciço.

As previsões mais pessimistas vêm do LEAP/Europe 2020, que as publica regularmente nos seus boletins e enviou-as mesmo numa carta aberta aos dirigentes dos Vinte antes da cimeira de Londres. Já em Fevereiro de 2006, o LEAP [Laboratório Europeu de Antecipação Política] foi de uma precisão surpreendente a descrever as perspectivas para a ‘crise global sistémica’ como consequência da doença financeira provocada pela dívida dos EUA.

Os analistas do LEAP consideram os acontecimentos actuais no contexto da crise geral que começou nos finais dos anos 70 e está agora na sua quarta fase, a fase final e a mais grave, a chamada ‘fase de purificação’ em que começa o colapso da economia real. Segundo Frank Biancheri, do LEAP, não é apenas uma recessão mas o fim do sistema, em que o seu pilar principal, a economia dos EUA, entrou em colapso. “Estamos a assistir ao fim de toda uma época mesmo em frente dos nossos olhos”.

A crise pode conduzir a algumas consequências muito difíceis. O LEAP prevê uma subida do desemprego para 15 a 20% na Europa e 30% nos Estados Unidos. Se não se conseguir solucionar o problema do dólar, os acontecimentos mundiais darão uma reviravolta dramática.

O colapso do dólar pode ocorrer já em Julho de 2009 e a crise, que poderá durar décadas, desencadeará “uma desintegração geopolítica à escala mundial” com motins sociais e conflitos civis, com a divisão do mundo em blocos separados, em que o mundo regressará à Europa de 1914, com confrontos militares, etc.

Os tumultos populares mais poderosos ocorrerão em países com sistemas de segurança social menos desenvolvidos e com maiores concentrações de armas, principalmente na América Latina e nos Estados Unidos, em que a violência social já se manifesta actualmente nas actividades de grupos armados. Os especialistas assinalam o começo da fuga para a Europa da população dos EUA, onde por enquanto a ameaça directa contra a vida não é tão grande. Para além dos conflitos armados, os analistas do LEAP prevêem escassez de energia, de alimentos e de água em áreas dependentes da importação de alimentos. Os especialistas do LEAP descrevem o comportamento das elites ocidentais como totalmente desajustado: “Os nossos dirigentes não conseguem entender o que aconteceu, e continuam a mostrar a mesma incompreensão até hoje.

Estamos no meio duma recessão prolongada, e seria necessário o empenho na introdução de algumas medidas a longo prazo para amortecer os golpes, mas os nossos dirigentes continuam na esperança de impedir uma recessão prolongada… Todos eles foram formados em torno do pilar americano e não conseguem perceber que o pilar está em ruínas…” Mas se os dirigentes a nível médio não vêem isso, os gestores mundiais de nível superior, pelo contrário, estão muito bem informados; são eles quem está a implementar o ‘caos controlado’ e a política de desintegração geral, incluindo uma guerra civil e a desintegração dos Estados Unidos planeada para o final de 2009, um cenário que está a ser discutido amplamente pelos meios de comunicação americanos e mundiais.

À beira dos conflitos planeados em diversas áreas do planeta, está a ser instituído um sistema que conferirá a um centro supranacional, com base numa máquina punitiva, o total controlo político, militar, legal e electrónico sobre a população.

Esse sistema utiliza o princípio de gestão de rede de comunicações que permite encaixar em qualquer sociedade estruturas paralelas de autoridade que reportam a centros de tomadas de decisões externos e são legalizados através da doutrina de prevalência da lei internacional sobre a lei nacional. A casca mantém-se nacional, mas o poder real passa a ser transnacional.

Jacques Attali chama a isto um ‘estado global baseado na lei’. O centro dirigente do estado global baseado na lei situa-se nos EUA. Embora os seus fundamentos tenham começado a surgir nos anos 90, a luta contra o terrorismo após os incidentes do 11/Set levaram a fenómenos radicalmente novos.

A aprovação da Lei Patriota de 2001 não só permitiu que os serviços de segurança controlassem a população americana e os estrangeiros suspeitos, como acelerou a passagem de responsabilidades estatais para as mãos de estruturas empresariais transnacionais.

As actividades de informações, do comércio da guerra, do sistema penitenciário, e do controlo de informações estão a passar para a mão de privados. Isto é feito através da chamada contratação no exterior, um fenómeno relativamente novo, que consiste em confiar determinadas funções a empresas privadas que agem como empreiteiros e atribuir a indivíduos exteriores a uma organização a realização das suas tarefas internas.

Em 2007, o governo americano chegou à conclusão de que 70% do seu orçamento de serviços de informações secretas é gasto em contratos privados e que a “burocracia de informações da Guerra-Fria está transformada numa coisa totalmente nova, em que dominam os interesses dos empreiteiros”.

Para a sociedade americana (incluindo o Congresso), as suas actividades mantêm-se confidenciais, o que lhes permite recolher cada vez mais funções importantes nas suas mãos.

Antigos funcionários da CIA dizem que quase 60% do seu pessoal estão sob contrato. Essas pessoas analisam a maior parte das informações, escrevem relatórios para os que tomam as decisões em jurisdições estatais, mantêm comunicações entre diversos serviços de segurança, dão apoio a posições estrangeiras, e analisam a intercepção de dados.

Em consequência disso, a National Security Agency da América está a ficar cada vez mais dependente de companhias privadas que têm acesso a informações confidenciais. Não admira, pois, que se esteja a criar pressão para uma proposta de lei no Congresso que prevê a garantia de imunidade a empresas que têm trabalhado com a NSA nos últimos cinco anos.

O mesmo está a acontecer com empresas militares privadas (PMCS), que têm vindo a assumir cada vez mais funções do exército e da polícia. Numa escala significativa, começou nos anos 90 na ex-Jugoslávia, mas foram utilizados trabalhadores contratados a nível alargado no Afeganistão e noutras zonas de conflito.

Executavam as acções ‘mais sujas’, como aconteceu com o caso durante a guerra na Ossétia do Sul, onde estiveram envolvidos mais de 3 000 mercenários. Neste momento, os PMCS são verdadeiros exércitos, cada um deles com mais de 70 mil efectivos, que operam em cerca de 60 países, com receitas anuais de mais de 180 mil milhões de dólares (segundo o Brookings Institution, EUA).

Por exemplo, mais de 20 mil empregados de PMCS americanos trabalham no Iraque ao lado do contingente militar americano de 160 mil. O sistema de prisões privadas também está a aumentar rapidamente nos EUA. Está florescente o complexo da indústria prisional, que utiliza trabalho escravo e práticas de trabalhos forçados, e os seus investidores estão sediados na Wall Street.

O uso de trabalho forçado por empresas privadas foi legalizado já em 37 estados e é utilizado por importantes empresas como a IBM, a Boeing, a Motorola, a Microsoft, a Texas Instruments, a Intel, a Pierre Cardin e outras. Em 2008, o número de internados em prisões privadas nos EU era de cerca de 100 mil e este número está a crescer rapidamente, juntamente com o número total de internados no país (na sua maioria afro-americanos e latino-americanos), que é de 2,2 milhões de pessoas, ou seja, 25% de todos os presos do mundo.

Logo que Bush assumiu o poder, começou a privatização do sistema para transporte e retenção de migrantes em campos de concentração. Em especial, foi o que fez um ramo da conhecida empresa Halliburton, Kellog Brown and Root (antigamente chefiada por Dick Cheney). As maiores conquistas foram feitas nos últimos anos na área da instituição do controlo electrónico sobre a identidade das pessoas, realizado sob o pretexto do contra-terrorismo.

Atualmente, o FBI está a criar a maior base de dados do mundo de indicadores biométricos (impressões digitais, exames da retina, formas do rosto, formas e distribuição de cicatrizes, padrões de fala e de gestos, etc.) que contém neste momento 55 milhões de impressões digitais. A última novidade inclui a introdução de um sistema de varredura corporal nos aeroportos americanos, análise da literatura lida pelos passageiros dos voos e por aí fora.

Uma outra oportunidade de reunir informações detalhadas sobre as vidas privadas das pessoas surgiu na sequência da Directiva N59 da NSA, aprovada no verão de 2008, ‘Identificação e rastreio biométrico com o objectivo de reforçar a segurança nacional’, e da confidencial ‘Lei da Resposta Pronta ao Terrorismo Nacional’. Numa avaliação da política das autoridades americanas, o ex-congressista e candidato presidencial em 2008, Ron Paul, disse que a América está a transformar-se gradualmente num estado fascista, “Estamos a aproximar-nos de um fascismo, não do tipo Hitler, mas de um tipo mais suave, que se revela na perda de liberdades civis, em que as grandes empresas dirigem tudo e… o governo está metido na cama com os grandes negócios”.

Será preciso lembrar que Ron Paul é um dos poucos políticos americanos que defende o encerramento do Sistema de Reserva Federal como uma organização secreta inconstitucional? Com a chegada de Obama ao poder, a ordem policial na América está a ficar cada vez mais afunilada em duas direcções – reforço da segurança nacional e militarização de instituições civis.

É impressionante como, depois de ter condenado as transgressões às liberdades individuais feitas pela administração Bush, Obama passou a controlar todo o pessoal da sua própria equipa obrigando-o a preencher um questionário com 63 perguntas que percorrem os pormenores mais complexos das suas vidas privadas.

Em Janeiro, o presidente dos EUA aprovou leis que possibilitam a continuação da prática ilegal de sequestrar pessoas, mantê-las secretamente em prisões, e enviá-las para países em que se utiliza a tortura.

Também propôs uma lei chamada Lei da Instituição do Centro de Apoio à Emergência Nacional, que estipula a instituição de seis desses centros em bases militares americanas para proporcionar apoio a pessoas que sejam deslocadas por causa de uma situação de emergência ou de uma catástrofe e que ficam assim sob jurisdição militar Analistas relacionam esta lei com possíveis perturbações e consideram-na uma prova de que a administração americana se está a preparar para um conflito militar que pode ocorrer após a provocação que está a ser planeada.

O sistema americano de controlo policial está a ser implementado activamente noutros países, principalmente na Europa – através da instituição da hegemonia da lei americana no seu território por intermédio da assinatura de diversos acordos.

Nisto tiveram uma grande importância as conversações na sombra entre os EUA e a UE sobre a criação da ‘área comum de controlo sobre a população’ que se realizaram na primavera de 2008, quando o Parlamento Europeu adoptou uma resolução que ratificou a criação do mercado transatlântico único, abolindo todas as barreiras ao comércio e aos investimentos até 2015.

As conversações deram origem ao relatório confidencial preparado pelos especialistas de seis países participantes. Este relatório descrevia o projecto para a criação da ‘área de cooperação’ nas esferas ‘da liberdade, da segurança, e da justiça’. O relatório alarga-se sobre a reorganização do sistema de justiça e assuntos internos dos estados membros da UE de modo tal que fica a parecer-se com o sistema americano.

Diz respeito não apenas à capacidade de transferir dados pessoais e cooperação de serviços policiais (que já está a ser posto em prática), mas também, por exemplo, à extradição de imigrantes da UE para as autoridades americanas de acordo com o novo mandato que anula todas as garantias que os procedimentos de extradição europeus prevêem. Nos EUA está em vigor a Lei das Delegações Militares de 2006, que permite a perseguição ou detenção de qualquer pessoa que seja identificada como ‘inimigo combatente ilegal’ pelas autoridades executivas e se estende aos imigrantes de qualquer país que não esteja em guerra com os EUA.

São perseguidos como ‘inimigos’, não com base em quaisquer provas, mas porque assim são rotulados pelas organizações governamentais. Nenhum governo estrangeiro protestou contra esta lei que é de importância internacional.

Em breve será assinado o acordo sobre comunicação de dados pessoais, segundo o qual as autoridades americanas poderão obter informações pessoais como números de cartões de crédito, pormenores das contas bancárias, investimentos, rotas de viagem ou comunicações via Internet, assim como informações sobre a raça, as crenças políticas e religiosas, os hábitos, etc.

Foi por pressão dos EUA que os países da UE introduziram os passaportes biométricos. A nova regulamentação da UE implica a mudança geral dos cidadãos da UE para passaportes electrónicos a partir do final de Junho de 2009 e até 2012. Os novos passaportes passarão a conter um chip com informações para além do passaporte e uma foto, e ainda as impressões digitais.

Estamos a assistir à criação do campo de concentração electrónico global, e a crise, os conflitos e as guerras estão a ser utilizadas como justificação. Como escreveu Douglas Reed, “as pessoas têm tendência para tremer perante um perigo imaginário e são demasiado preguiçosas para ver o perigo real”.

O original encontra-se em http://en.fondsk.ru/article.php?id=2070 . Tradução de Margarida Ferreira. Este artigo encontra-se em http://resistir.info/